Pesquisa clínica: uma arma da saúde


Bruno Muzzi Carneiro, Oncologista do Cetus Oncologia

Todo o desenvolvimento de novos conhecimentos e tecnologias de prevenção e tratamento de doenças, bem como a verificação dos efeitos farmacodinâmicos, farmacológicos e clínicos de qualquer medicamento necessita de pesquisas clínicas. Nelas são avaliados e testados inúmeros aspectos, em diversas etapas, com diferentes métodos que beneficiarão a sociedade com a descoberta de medicamentos seguros e procedimentos médicos fundamentais para a vida.

Para um medicamento chegar às nossas casas, são necessários estudos clínicos que passam por diversas fases fundamentais que vão desde a avaliação inicial em humanos, com tolerância em voluntários saudáveis, até a estratégia de publicação e comunicação, passando por fases como avaliações internacionais de larga escala de diferentes populações em múltiplos centros para demonstrar eficácia e segurança.

Recentemente, a comunidade médica brasileira se viu em difícil situação com a sanção da Lei 13.269 em abril que autoriza pacientes com câncer a usarem a fosfoetanolamina sintética antes de seu registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Essa medida ocorreu dias depois da divulgação de testes realizados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação mostrarem que a substância não apresenta eficácia contra células cancerígenas em testes in vitro.

A fosfoetanolamina foi desenvolvida por um professor de química de São Paulo que afirma que ela é capaz de tratar todos os tipos de câncer. Animados com os resultados dos testes em culturas de células e pequenos animais, os pesquisadores decidiram ignorar a necessidade de realizar os estudos necessários para qualquer substância ser considerada medicamento e passaram a distribuí-la para pessoas com câncer.

Ignorar regras e padrões internacionais e desprezar a necessidade de realizar pesquisas clínicas em um medicamento, para qualquer fim que seja, é regredir décadas de conquistas da ciência no país, além de um grande desrespeito com profissionais que trabalham de forma incansável em projetos desenvolvidos para o bem da sociedade. Soma-se a isso a burocracia, que faz com que o país perca os prazos de ingresso em estudos internacionais ano a ano.

Segundo a Interfarma, em 2015, um estudo era avaliado em até 60 dias nos Estados Unidos, enquanto no Brasil demora aproximadamente 12 meses. Enquanto isso, instituições de pesquisa sérias amargam prejuízos de tempo, dinheiro e conhecimento com a morosidade dos estudos.

Conhecimento e força de vontade nós temos no Brasil. São vários centros especializados, com tecnologia de ponta, como o Cetus, que conta com uma equipe de pesquisa que investiga temas relacionados ao diagnóstico e ao tratamento de câncer, beneficiando a população com a descoberta de novos medicamentos e procedimentos médicos. As pesquisas são conduzidas seguindo rigorosamente as Boas Práticas Clínicas, bem como as normas dos Comitês de Ética em Pesquisa e da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, em acordo com a resolução do Conselho Nacional de Saúde Nº 466 de 12 de dezembro de 2012. Todo projeto de pesquisa é avaliado previamente por Comitês de Ética e órgãos que autorizam a sua condução, levando em consideração os preceitos éticos e de segurança.

Portanto, se existe legislação para garantir os direitos dos sujeitos de pesquisa, eles devem ser cumpridos. Pela saúde da população e pela dignidade da comunidade científica.

21-07-2016 - Jornal Estado de Minas - Pesquisa Clínica - Arma da Saúde menor

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