Câncer é uma questão de azar?


Geraldo Felício, oncologista do Cetus-Hospital Dia, especializado em medicina oncológica.

 

07-02-15 - Estado de Minas - Câncer é uma questão de azarUm estudo realizado por pesquisadores da Universidade Johns Hopkins nos Estados Unidos e da Escola de Saúde Pública Bloomberg, divulgado no fim do ano passado na revista Science, provocou uma polêmica ao afirmar que o simples acaso ou “má sorte” é um dos fatores que mais causam câncer, mais até do que riscos conhecidos. Esses pesquisadores estimaram que a chance que se desenvolver determinado câncer ao longo da vida se correlaciona diretamente com o número de divisões celulares das células-tronco do tecido normal. A pesquisa aponta que 65% dos casos de câncer são resultados de mutações aleatórias de DNA acumuladas em várias partes do corpo durante divisões de rotina nas células, sendo que outros fatores como o ambiental e genético contribuíram com o restante dos 35% do risco. Os dados causaram grande repercussão na imprensa mundial, que em geral salientou o caráter não-prevenível da maioria dos cânceres.

Acredito que a grande repercussão do trabalho tenha ocorrido não pelos resultados, que não são tão surpreendentes e estão de acordo com o percentual de cânceres preveníveis. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), pelo menos um terço dos cânceres seriam evitáveis com o simples ato de não fumar, não beber, realizar exercícios físicos, ingerir comidas saudáveis, entre outros. O problema foi a infeliz forma como o estudo foi concluído: literalmente, o autor escreveu que a maioria dos cânceres (65% deles) é devida à má sorte.

O estudo imediatamente provocou uma reação da OMS, claramente preocupada com as repercussões negativas desta afirmativa, que poderia desestimular a população a tomar as medidas preventivas e ainda reduzir os recursos dos governos empregados na pesquisa e combate de fatores preveníveis do câncer.

A OMS critica certas limitações metodológicas do estudo, como por exemplo, o fato de ter sido realizado somente com informações da população americana e não terem sido analisados tipos comuns de câncer, como o de mama. A grande margem de erro nas conclusões (embora o estudo estime que em média 65% dos cânceres são causados pelo acaso, estatisticamente, a margem de erro dessa afirmação varia entre 39 e 81%, ou seja, 4 em cada 10 cânceres poderiam ser resultado de ¨má sorte¨ ou, alternativamente, 8 em cada 10). Além disso, como o estudo é populacional, ele não é capaz de gerar dados para se estimar os riscos em uma pessoa individualmente.

Todo estudo científico deve ser analisado de forma crítica e responsável. No nosso dia a dia vemos que grande parte dos cânceres não têm uma explicação nos hábitos de vida e na hereditariedade. Por outro lado, hábitos saudáveis e combate aos fatores de risco sabidamente evitam uma série de cânceres em proporção maior que 50%, como é o caso, por exemplo do câncer de pulmão, que é largamente evitável pelo simples fato de não fumar, ou o câncer do colo uterino, que é prevenível com a vacina contra seu agente causal, o HPV.

A pesquisa foi realizada por uma universidade séria. Tem como recomendação prática a ideia de se concentrar esforços de prevenção naqueles casos preveníveis (ainda que sejam apenas um terço dos casos) e no diagnóstico precoce para os demais casos. Mas deve-se esperar dados de estudos futuros em outras populações e com outras metodologias para ver se estes achados serão confirmados ou refutados.

 

Publicação dia 07/02/2015, Jornal Estado de Minas. Artigo Dr. Geraldo Felício.

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